
Estou preparando uma palestra e um artigo sobre os Salões de Milão, apesar de muita coisa já ter sido publicada nos sites e revistas especializadas. Como tentar resumir a Milano Design Week é uma tarefa impossível, o jeito é dirigir o olhar para os assuntos que mais nos interessam. Felizmente (e finalmente) está entendido que não precisamos visitar os Saloni para “detectar tendências”, saber qual é o tema da estação ou a cor da moda. Os grandes temas da atualidade são as mudanças de comportamento, novos modus vivendi, novos valores e respeito aos recursos, sejam eles naturais ou não. Este texto é dirigido aos meus colegas designers. Para os empresários devo fazer um outro discurso, mais sintonizado com suas expectativas.
Como sempre acontece, muitas empresas apresentam produtos de catálogo com nova roupagem e fazem o mercado acreditar que são novidades. Isto é compreensível, claro, devido aos altos custos de lançamento de um novo produto. Em 2009 esta foi a estratégia mais comum, e o que se viu foi mais do mesmo. A Edra, casa que edita produtos dos irmãos Campana na Itália, veio com a mesa Brasília em novas cores, mais fortes, e as cadeiras de couro com toque
Como sempre acontece, muitas empresas apresentam produtos de catálogo com nova roupagem e fazem o mercado acreditar que são novidades. Isto é compreensível, claro, devido aos altos custos de lançamento de um novo produto. Em 2009 esta foi a estratégia mais comum, e o que se viu foi mais do mesmo. A Edra, casa que edita produtos dos irmãos Campana na Itália, veio com a mesa Brasília em novas cores, mais fortes, e as cadeiras de couro com toque
manual ganharam uma versão em plástico brilhante com cara de vinil.
Um genuíno relançamento aconteceu na B&B, em comemoração aos 40 anos da clássica poltrona de Gaetano Pesce - Mamma Mia! , reeditada em prata.
No ano em que a palavra crise esteve subentendida em todos os corredores, até a imprensa se ressentiu da economia dos folders e flyers distribuídos. O número de visitantes diminuiu sensivelmente (cerca de 122.000 pessoas a menos do que no ano passado), mas de acordo com Manlio Armellini, diretor da Cosmit, a crise econômica não conduziu os Salões a um processo de empobrecimento criativo, resignação ou timidez. Ao contrário, disse ele, provocou duas reações/atitudes antagônicas: por um lado a preocupação dos criadores com projetos concretos e economicamente viáveis e, por outro os criadores que se refugiam em projetos de “sonho e excepcionalidade”. Vejamos:
A volta das formas orgânicas iniciada em 2008 evoluiu para “volta às origens”. Um bom exemplo desta tendência é o banheiro dos sonhos de Patrícia Urquiola para Axor, com banheira individual (!) para evitar o desperdício de água.
Apesar da tecnologia disponível e acessível o visual high tech praticamente desapareceu dos móveis, ambientes e materiais. Agora as propostas giram em torno do conforto e aconchego proporcionado pelos materiais de toque e aspecto naturais. As linhas sinuosas e formas arredondadas apareceram principalmente nos estofados e dormitórios, onde também se explorou a translucidez, cores sóbrias e alta utilização do couro natural ou sintético. Móveis menores, multiuso, componíveis e moduláveis ganharam espaço em várias marcas tradicionalmente arrojadas.
A verdade é que em 2009 a maioria das empresas decidiu explorar o lado mais comercial da feira. Nos stands, recepcionistas estavam mais preparadas para atender compradores do que à imprensa. A presença de muitos produtos com edição limitada continua forte, mas o que cresceu visivelmente foi a quantidade de produtos “customizáveis” (reflexo dos tempos de crise).
Nos pavilhões Design um dos objetos que mais me chamou atenção foi o banco de madeira estampada em tecido (Tokujin Yoshioka para Moroso), além da nova Coleção Outdoor da B&B. O luxo discreto da nova Coleção Armani Casa foi um dos destaques no circuito Fuori Saloni.
Um genuíno relançamento aconteceu na B&B, em comemoração aos 40 anos da clássica poltrona de Gaetano Pesce - Mamma Mia! , reeditada em prata.
No ano em que a palavra crise esteve subentendida em todos os corredores, até a imprensa se ressentiu da economia dos folders e flyers distribuídos. O número de visitantes diminuiu sensivelmente (cerca de 122.000 pessoas a menos do que no ano passado), mas de acordo com Manlio Armellini, diretor da Cosmit, a crise econômica não conduziu os Salões a um processo de empobrecimento criativo, resignação ou timidez. Ao contrário, disse ele, provocou duas reações/atitudes antagônicas: por um lado a preocupação dos criadores com projetos concretos e economicamente viáveis e, por outro os criadores que se refugiam em projetos de “sonho e excepcionalidade”. Vejamos:
A volta das formas orgânicas iniciada em 2008 evoluiu para “volta às origens”. Um bom exemplo desta tendência é o banheiro dos sonhos de Patrícia Urquiola para Axor, com banheira individual (!) para evitar o desperdício de água.
Apesar da tecnologia disponível e acessível o visual high tech praticamente desapareceu dos móveis, ambientes e materiais. Agora as propostas giram em torno do conforto e aconchego proporcionado pelos materiais de toque e aspecto naturais. As linhas sinuosas e formas arredondadas apareceram principalmente nos estofados e dormitórios, onde também se explorou a translucidez, cores sóbrias e alta utilização do couro natural ou sintético. Móveis menores, multiuso, componíveis e moduláveis ganharam espaço em várias marcas tradicionalmente arrojadas.
A verdade é que em 2009 a maioria das empresas decidiu explorar o lado mais comercial da feira. Nos stands, recepcionistas estavam mais preparadas para atender compradores do que à imprensa. A presença de muitos produtos com edição limitada continua forte, mas o que cresceu visivelmente foi a quantidade de produtos “customizáveis” (reflexo dos tempos de crise).
Nos pavilhões Design um dos objetos que mais me chamou atenção foi o banco de madeira estampada em tecido (Tokujin Yoshioka para Moroso), além da nova Coleção Outdoor da B&B. O luxo discreto da nova Coleção Armani Casa foi um dos destaques no circuito Fuori Saloni.
Também não faltaram as tentativas "verdes". De olho nos compradores dos Estados Unidos e Inglaterra, preocupados em oferecer a seus mercados produtos ambientalmente responsáveis, muitas empresas carimbaram seus produtos com o selo de sustentabilidade, e mesmo designers renomados como Starck e Urquiola se valeram do conceito design sustentável como base para suas criações.
Sustentabilidade, enfim, foi o grande tema de Milão em 2009. A universidade pública da cidade, por exemplo, organizou uma enorme instalação utilizando materiais recicláveis e energias alternativas. No Salão de Iluminação, Euroluce, as propostas giraram em torno de sistemas mais econômicos e menos poluentes como os LEDs. São os "ecos" de Milão ressoando: ecodesign, ecocompatível, ecoprodutos, ecoidéias... ecco!
Uma empresa que tem investido na bandeira da sustentabilidade é a grife Valcucine, que este ano apresentou no tradicional SuperStudio Più o projeto “gReenaissance” – uma proposta de Cozinha 100% Reciclável, toda construída em vidro e alumínio, zero em emissões tóxicas.
O Salão Satélite reuniu cerca de 700 jovens sob o tema “Projetar o Bem Estar”. Entre os protótipos eco-friendly, no mais genuíno estilo “feira de ciências”, apareceu um inusitado Armário com tiras de elástico e dezenas de idéias curiosas, divertidas e comprometidas.
Na Zona Tortona fui surpreendida pela proposta da holandesa Karton, que restaura móveis com peças produzidas em papelão. Novas tecnologias aliadas a processos aparentemente artesanais desafiam nossos desejos e sentidos. Impossível voltar desta imensa mostra achando que tudo já foi criado no mundo do design. A Zona Tortona é o evento mais democrático do mundo do design, onde todos podem mostrar suas criações e estão sob o mesmo jugo crítico oferecido às estrelas.
Outra boa surpresa do circuito alternativo foi a mostra Floresta Móbile, uma iniciativa do Conselho Euro-Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável que tem, entre outros objetivos, transformar sobras de madeira de Norte e Nordeste do Brasil em produtos eco-compatíveis. É uma bandeira erguida na promoção do local, em oposição ao globalizado, ironicamente numa das cidades mais globalizadas do planeta.Entre os convidados para dar vida à madeira brasileira descartada Jum Nakao criou a bela luminária Cocar e representou muito bem o design brasileiro na Babel milanesa.
